Ainda estou aqui
Um grito pelo amor, um grito para que nunca mais tenhamos que viver sob uma Ditadura.
Só defende uma Ditadura quem não conhece a nossa História, quem não estuda, quem só pensa em si, quem é conivente com violência e retrocesso.
Ainda estou aqui não é partidário, mas é político porque expõe o valor da democracia, o terror da supressão dos direitos e da censura.
Um filme emocionante, intenso, que propaga amor e justiça com diálogos com teor humano, bem escritos.
Não é um filme sentimentalista, para transmitir piedade. Coloca em evidência o quanto os anos da Ditadura foram complicados, deixaram muitas famílias desesperadas em busca de entes queridos, entes que sofreram tortura, muitos assassinados, por lutarem por respeito e liberdade.
Walter Salles é um diretor talentoso e traz a saga de uma mulher, de uma família, em busca de seu ente querido. É uma família famosa, mas que representa inúmeras famílias anônimas.
Vale lembrar que a história é baseada no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva, que fala da luta incansável de sua mãe, Eunice, em busca de notícias do marido, Rubens Paiva, militante político, ex-deputado, jornalista, engenheiro.
Um olhar afetivo, crítico e essencial para um momento tão triste e importante do Brasil, que parecia ter ficado no passado, mas que foi revivido, de modo menos intenso, durante os quatro anos do inelegível.
Claro que o período não pode ser chamado de Ditatorial porque houve a manutençãp dos poderes, mas foi complicado porque emanou o ódio e as ações governamentais visavam somente o lucro, o poder, a exploração dos mais vulneráveis!
Um filme memorável, com cenas muito bem construídas e interpretações sensíveis.
Closes, fotografias, vídeos e a trilha sonora ajudam a traçar a memória dessa família que era extremamente feliz e foi despedaçada com o sumiço do patriarca, em 1971.
Cores fortes na praia (no Rio, Leblon) , no cotidiano amoroso; depois tons opacos para os porões da tortura e o vazio na alma do sobrado em frente ao mar, tão amado pela família Paiva.
A reconstituição dos anos da Ditadura está nas ambientações, nas roupas e no comportamento dos personagens.
A trama acontece nos anos de chumbo - o filme já começa mostrando a violência dos militares ao abordarem as pessoas nas ruas; depois em 1996, quando a família conseguiu o atestado de óbito de Rubens Paiva (essencial para inúmeros trâmites burocráticos), mas sem detalhes sobre o "desaparecimento" , e em 2014, com Eunice já velha e doente, com todo o amor familiar, e com a certeza da tortura e assassinato de Paiva.
São grandes atores que estão no elenco: Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro, como principais, transmitem com louvor a emoção dos personagens, com diversas camadas que transitam entre o amor, o desespero, a esperança, o desânimo e a força de não desistir jamais.
Fernanda Torres está sublime! Com certeza é o papel de sua vida e um dos trabalhos mais lindos que já presenciei de uma atriz. O seu olhar é magnetizante, a sua presença na telona é um presente. A sua composição para a Eunice é exemplar, de corpo e alma. Eunice é tão forte que não "deixa a peteca cair, apesar dos momentos de muita tristeza.
Após o desaparecimento do marido, ela resolve ir para SP, com o filhos (claro) para ficar mais perto de seus pais. Vai cursar Direito e luta pelos direitos dos povos originários.
A participação de Fernanda Montenegro, como Eunice já bem idosa, é curta e arrebatadora, sobretudo quando ela assiste a um programa sobre a Ditadura e escuta o nome do marido. Eunice está com Alzheimer e , apesar de apática, ao ouvir o nome de Rubens, ela tem um momento de lucidez, a sua fisionomia se transforma!
Um momento muito especial! Através do olhar e da expressão facial, a atriz transmite toda a dor e a saudade de sua personagem, a dor de quem viveu para para que os governantes reconhecessem o assassinato de seu amado marido.
Só assistindo para ver a profundidade da cena. De arrepiar!
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Sobre Rubens Paiva
Foi militante no movimento estudantil e teve cinco filhos com Eunice, com quem se casou em São Paulo, entre eles o renomado escritor Marcelo Rubens Paiva.
Rubens foi eleito deputado federal por São Paulo em 1962, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com o Golpe de 1964 foi cassado e exilado.
Ao voltar para o Brasil, mudou-se com esposa e filhos para o Rio, trabalhou com engenharia, mas atuava em segredo contra a Ditadura.
Em 20 de janeiro de 1971, foi levado pela polícia da casa em que vivia com a família no Leblon.
Uma equipe de agentes armados do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA) invadiu a casa.
Em 20 de janeiro de 1971, seis homens invadiram a casa de Rubens no Rio de Janeiro fortemente armados e levaram o político para prestar depoimento. Eunice, esposa de Paiva, e Eliana, filha do casal, foram presas no dia seguinte.
Rubens foi torturado e morto no Destacamento de Operações Internas (DOI-CODI), no quartel da Polícia do Exército. Na época, os órgãos oficiais alegaram que Paiva havia fugido durante transferência de prisão e nunca mais fora encontrado.
Eunice Paiva, liberada depois de 12 dias presa (e a sua filha logo foi liberada), passou a brigar para que o desaparecimento do marido fosse investigado.
Em 1996, depois da sanção da Lei dos Desaparecidos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, foi emitido o atestado de óbito de Paiva.
Em 2012, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), instituída em pela ex-presidente Dilma Rousseff, apresentou documentos e depoimentos que atestaram a entrada de Rubens Paiva no DOI-CODI, em 20 de janeiro de 1971, provando que o político foi torturado e morreu devido a gravidade dos ferimentos.
A Comissão denunciou que o assassino de Rubens Paiva foi o ex-tenente do exército Antônio Fernando Hughes de Carvalho, oficial do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) ligado à Cisa (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica), mas nenhuma punição ocorreu e a investigação foi encerrada.
Em 2024, foi reaberta a investigação sobre o assassinato de Paiva, mas devido à Lei da Anistia dificilmente o resultado será satisfatório. |