“A loucura está profundamente ligada ao desamor. Só o amor salva alguém da loucura” – Nise da Silveira
Viver é estar sempre numa corda bamba, num mundo em que o limite entre a sanidade e a loucura muitas vezes é tênue.
A única salvação, assim como no texto Pulsões, de Dib Carneiro Neto é o amor, que pode deixar o cotidiano mais leve e interessante.
Em Pulsões, é mostrada a alma inquieta de dois artistas, ela é bailarina; ele é músico. Eles estão entre a sanidade e a loucura, entre a realidade e a alucinação. O encontro entre os dois é marcado por um emaranhado de sensações e emoçoes.
O clima onírico toma conta do palco. A ideia não é provocar reflexões e sim sensações, mexer com o inconsciente.
Esse encontro acontece num lugar indefinido e eles correm o risco de perder a memória, e consequentemente as suas identidades. A música, a dança e o contato que estabelecem pode salvá-los.
A diretora Kika Freire é bailarina e usa a sua experiência nessa área para a criação do espetáculo.
Movimentos precisos, coreografados, o texto poético e a trilha tocada ao vivo servem para realçat o clima onírico das cenas.
A peça surgiu de uma encomenda de Kika Freire para o dramaturgo Dib Carneiro Neto, que mergulhou na obra da Dra. Nise da Silveira e aborda a falta de limites entre a arte e a loucura,
Música, figurino e luz contribuem para que a ação aconteça num ambiente onírico, de extrema poesia. A música tem função dramatúrgica e a trilha é executada ao vivo. João Bittencourt e Maria Clara Valle tocam ao vivo piano e violoncelo.
Segundo o autor Dib Carneiro Neto, o espectador é convidado a mergulhar nas suas singularidades, “Que sirva a cada um como uma tentativa de mergulho nas próprias profundezas e delicadezas. Como uma vertigem cênica revolvendo nossas fragilidades mais inconfessáveis. Como um oásis de imaginação irrefreável em meio ao pragmatismo concreto de nosso cotidiano. Música e dança indissociáveis do teatro e, portanto, da vida e da morte. Para vocês, e com vocês, uma bailarina e um maestro”, declara.
Dib tem uma trajetória de sucesso como dramaturgo. Seu primeiro sucesso foi Adivinhe quem vem para rezar, com direção de Elias Andreato e Paula Autrane Claudio Fontana no elenco. Depois assinou adaptações, do livro Depois Daquela Viagem, de Valéria Piazza Polizzi, Salmo 91 (baseado em Estação Carandiru), Crônica da casa Assassinada, de Lucio Cardoso, e Calígula, com direção de Gabriel Villela. No ano passado, Gabriel Villela dirigiu outro texto seu, Um Réquiem para Antonio, que colocava no palco um acerto de contas entre os compositores Mozart e Antonio Salieri.
Dib é jornalista e crítico teatral de espetáculos infantis, com coluna semanal na Revista Crescer.
ENTREVISTA COM DIB CARNEIRO NETO
A sua formação é como jornalista e você ainda trabalha na área. Como é essa dedicação a uma área que prima pelo texto objetivo e o trabalho como dramaturgo, que permite voos?
O lado jornalístico me ensinou a prestar atenção na concisão, na síntese, na objetividade, na clareza. Mas, de fato, os voos da imaginação sempre me seduziram, me cativaram, desde criancinha. Procuro, então, aliar esses dois lados na hora de escrever uma peça de teatro – e não sei se consigo sempre, mas, com certeza, tento sempre, afinal o teatro vive de imaginação, de sonho, de fantasia, ou seja, de estimular isso tudo na cabeça e na alma do público.
Creio que Pulsões é o seu texto mais poético, não?
As ótimas críticas que tivemos durante a temporada no Rio de Janeiro foram unânimes em dizer isso, que o texto de ‘Pulsões’ é bem poético. Fiquei feliz com esse tipo de análise da peça, pois tentei mesmo atingir as pessoas por essa via do lírico e do onírico, da metáfora e da ‘brincadeira’ com as palavras. O uso das palavras tem um peso forte no espetáculo, pois os dois personagens retratados vivem mergulhados em um universo interior muito particular, o dos psicóticos. A saída ali era fugir no realismo, do naturalismo, da linearidade da trama, e, ao contrário, deixar a narrativa fluir ao sabor do afeto, do destempero, da dúvida, da dor e do amor. Tomara que o público paulistano acesse o espetáculo também por essa via.
Neste sentido, como foi mergulhar no universo da Nise da Silveira e num mundo sem limites que está tão presente na vida do artista?
Muito instigado pela diretora e idealizadora desse espetáculo, Kika Freire, fiz algumas leituras prévias sobre a obra dessa grande mulher que foi a dra. Nise, mas, claro, não deu tempo de virar nenhum expert em seu método de atuação com seus ‘clientes’ (como ela preferia chamar os pacientes). E estávamos mais interessados em sensações do que em transmitir conceitos de forma didática ou enciclopédica. Queríamos no palco o lado lúdico e artístico dos tratamentos sugeridos pela dra. Nise. A ideia, desde o começo, proposta a mim pela direção, era provocar a plateia no que se refere aos limites entre arte e loucura. A proposta me fascinou e, ao escrever, vasculhei dentro de mim as verdades mais ‘inventadas’, as conversas desencontradas, as amarguras mórbidas, os ressentimentos antigos, as alegrias amorosas e as paixões tão insanas quanto intensas.
E o encontro com a Kika? E a experiência de ver o espetáculo no Rio, com sucesso de público e crítica?
Não pude ir ao Rio acompanhar a fase de ensaios, embora tivesse sido convidado e até convocado pela equipe durante todo o tempo. Isso me levou a uma situação muito emocionante: ver o resultado só na estreia, junto com o público, em maio. É claro que eu conversava muito com a diretora, e tinha plena confiança na equipe artística que ela escolheu para auxiliá-la nessa aventura, mas mesmo assim não teve jeito: fui para a estreia com muita expectativa e até muito nervosismo. Acabei dando vexame: chorei muito, encantado com a sensibilidade da encenação. Por mais que eu esperasse um resultado lindo e competente, o que vi naquela noite – e nas outras em que voltei, durante a temporada carioca – superou demais minhas expectativas de autor.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Dib Carneiro Neto
Direção: Kika Freire
Elenco: Fernanda de Freitas e Cadu Favero
A ATRIZ NATALIA GONSALES DIVIDE O PAPEL DA BAILARINA COM FERNANDA DE FREITAS NAS TEMPORADAS PAULISTANAS.
Direção musical e Trilha sonora: Marco França
Piano: João Bittencourt
Violoncelo: Maria Clara Valle
Iluminação: Fran Barros
Cenários e Figurinos: Teca Fichinski
Caracterização: Rose Verçosa
Fotografia e Programação Visual: Victor Hugo Cecatto |