Mulher em Fuga foi um acontecimento no Festival de Curitiba
O espetáculo impacta ao mostrar a força de uma mulher em buscar uma vida sem violência verbal e física.
É um grito nescessário contra a violência e opressão num mundo cada vez mais machista e misógino.
O mais interessante é que o projeto foi idealizado pelo ator Tiago Martelli, que brilha em cena ao lado de Malu Galli.
A peça é baseada em duas obras de Édouard Louis. O autor escreveu dois livros baseados na trajetória de sua mãe, Monique.
Uma saga de abusos, três casamentos, três desastres amorosos. O que levou essa mulher a aceitar situações de opressão e violência? Certamente solidão? MEDO, COM CERTEZA, MUITO MEDO..
Na peça é mostrado que ela sempre caiu nas mentiras dos homens com os quais se relacionou, os quais sempre prometeram respeito e vida digna. No fim, desespero, miséria, ofensas e mais ofensas; ps sonhos apagados e o dia a dia sem cor, sem brilho, só tristeza e apagamentos. .
A vontade de sair desses casamentos nocivos sempre apagada pelo medo de sofrer violências físicas, ou mesmo de ser assassinada; raiva por desrespeitarem os seus filhos, em especial Louis por ser gay.
O problema é que o caos da sua vida interferiu na sua relação com o filho. Um amor sufocado. Louis não suportava ver a sua mãe ser molestada e a sua inércia.
Um garoto que sempre presenciou situações de total desrespeito. O seu próprio fai foi um dos maridos que tanto arruinou a vida da sua mãe, aproveitador, alcóolatra e sem caráter algum, sem pudor de zombar de Monique diante de seus amigos.
O melhor jeito que Louis encontrou de fugir de tudo isso foi distanciar-se de sua mãe. Uma atitude covarde (?), mas que lhe deu saúde mental para conseguir espaço como escritor renomado. Ele sentia vergonha de sua mãe, por ela ser muito simples e por não conseguir se desvencilhar facilmente dos seus maridos, sempre os desculpando e amenizando o teor da violência.
Como ocorre na maioria dos casamentos abusivos, a mulher sempre acreditando que o marido vai mudar, que o terror irá passar... seja por medo ou comodismo, não coloca um fim no relacionamento e a agonia continua...
Num certo momento, cansada de ser oprimida ela acaba definitivamente com o último relacionamento tóxico.
É nesse momento que a peça tem início e o público acompanha as sofridas experiências de Monique através de narrativas e também de conversas, via telenone entre ela e o filho. Reconstruir a vida não é nada fácil, mas para a garantia ds uma vida sem percalços e feliz, tentar construir um cotidiano produtivo e prazeroso é essencial.
Mulher em Fuga é o encontro entre artistas incríveis: Tiago Martelli, o filho. e Malu Galli, grande nome do teatro é a mãe. Interpretações seguras, dois atores em plena conexão. Mallu Galli é uma diva que vive Monique com uma intensidade tocante.
A atriz transmite com maestria os medos angústias da mãe, mas também toda a volúpia de quem está ávida por viver sem amarras e com respeito. Uma vida tão sem frescor que o seu único " ato" de intensidade é ouvir o seu único CD (dos Scorpions).
Inez Viana, outro grande nome das artes cênicas é uma diretora que guia os atores na construção dde todas as camadas e nuances dos personagens que interpretam
No palco, a casa de Louis e dois personagens que precisam se reconectar.
Na direção de Inez, o olhar dos atores pouco se cruzam, o contato tem ar de desconforto e o grito de Monique pela liberdade de ser e viver acontece através da música.
Quando o desejo é de explodir, a bateria é tocada vorazmente por Monique/Malu.
Ao falar de sua vida particular, expondo os conflitos com sua mãe e o quanto viver num ambiente de abuso é asfixiante, o autor fala de muitas mulheres despeçadas e famílias destroçadas. E é a partir desse momento também que ele começa a perceber o valor de sua mãe, que sempre o defendeu e que, apesar de tantas provações, reuniu forças para tentar dar um rumo positivo à sua vida. Hoje,através da arte de escrever, Édouard Louis tem orgulho de sua mãe e entende que ela agiu buscando o bem e a felicidade, mas por algum motivo acabava se envolvendo com pessoas desprezíveis, dignas de lástima.
Nem toda mulher é corajosa, por medo, acomodação e vergonha, mas o machismo e a misoginia são combatidos com a denúncia. Denunciar, sair de casa, viver sem amarras é fazer com que a justiça prevaleça.
Peça muito oportuna. É o teatro propondo reflexões urgentes e necessárias.
Em pleno 2026 os casos de feminicídios e graves agressões nos deixam perplexos...
O caso da moça arrastada em plena marginal Pinheiros é só um dos fatos mais recentes e chocantes que presenciamos. E os feminicídios continuam. Mesmo quando as mulheres sobrevivem, com certeza elas estão "mortas por dentro", a dor é eterna.
O pior dessa triste realidade, não existe lei para punir, com o rigor merecido, os assassinos, estupradores e abusadores, e assim presenciamos mais e mais casos. Uma dor que é coletiva, de mulheres, em especial, mas também dos homens que respeitam
DESOLADOR: Em 2025, "3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica, segundo o DataSenado. Apesar de uma redução percentual em comparação a 2023, os índices de feminicídio continuam altos, com uma média de 4 mulheres mortas por dia no 1º semestre de 2025, totalizando 718 casos", informa o Senado Federal. Do G1. Março de 2026. A vítima sobreviveu, mas não é sempre assim... "Jovem esfaqueada mais de 15 vezes por homem recebe alta: ‘Minha filha venceu essa batalha’, diz mãe
Alana Rosa deixou o hospital em uma cadeira de rodas, sob aplausos da equipe médica, que também escreveu uma carta para a paciente. Familiares e amigos pedem justiça" .
NÃO É NÃO!
FICHA TÉCNICA
Autor: Édouard Louis
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Direção Artística: Inez Viana
Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
Voz off: Édouard Louis
Assistência de Direção: Lux Nègre
Cenografia: Dina Salem Levy
Cenógrafa Assistente: Alice Cruz
Cenotécnico: Henrique Farias
Desenho de Luz: Aline Santini
Trilha Sonora: Felipe Storino
Figurino: Ticiana Passos
Colaboração Artística: Denise Stutz
Visagismo: Vini Kilesse
Fotografia: João Pacca – Opacca
Designer Gráfico: Fernando Vilarim
Preparador Musical: Marcelo Callado
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Operador de Luz: Paulo Maeda
Operador de Som e Vídeo: Cauê Andreassa
Videomapping / Assistente de Luz: Ricardo Barbosa
Estratégia Digital & Social Media: Alexandre Ammano e Leonardo Bonato
Assistente de Palco: Flávio Rodrigues
Contrarregra: Ricardo Mancini
Coordenação de Direitos Autorais: Tiago Martelli
Direção de Produção: Gabriela Morato – Associação Sol.te
Coordenação Geral de Produção: Cícero de Andrade – Mosaico Produções
Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli, Matheus Ribeiro e Thais Cairo
Assistente de Produção: Karla Mariana
Idealização: Tiago Martelli.
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