Tem a última sessão hoje
Teatro Guaíra - Guairão.
Embate caloroso e respeitoso de ideias diferentes sobre o homem, o cotidiano e a Igreja
Dois Papas - baseado no filme e num encontro fictício entre autoridades religiosas.
O início: um funcionário do Vaticano calça os sapatos na santidade Bento XVI. Um ato simples, mas com uma simbologia profunda de uma igreja que criou o celibato para que os seus bens não fossem divididos entre os cônjuges dos religiosos...
Conservadorismo, visão arcaica de acobertar casos de pedofilia, por exemplo, em nome da permanência da imagem da igreja como perfeita x visão mais aberta do mundo para a fé, divórcio, relações homoafetivas defesa da Palestina.
Um texto que trata de Humanidade, amor e fé. Fala da possibilidade de diálogo, apesar de diferenças, de arrependimento, possibilidade de olhar para o próximo e de evolução humana, e muito mais. O homem não sabe escutar e a escuta em Dois Papas é essencial para o decorrer dos fatos.
Uma obra que não é religiosa, mas tem a igreja como ponto de partida para falar do mundo onde é preciso ações que respeitem a diversidade, não que sustente preconceitos.
Diante de divergências com Papa Bento XVI, alemão, o cardeal Jorge Bergoglio, argentino, de 75 anos, mais conhecido futuramente como Papa Francisco, planeja pedir aposentadoria do seu ofício, com funções na Vila Miséria, jesuíta, com diálogos com a Teologia da Libertação. Já Bento XVI pretende deixar o papado por estar sob pressões. Está com 85 anos.
A igreja pede mudanças, mas como rever preceitos , que mesmo ultrapassados, sustentam o luxo e o poder ?
Bergoglio é um sucessor improvável (será mesmo?!) porque existem divergências entre eles, mas seria o Papa ideal.
Num encontro entre os dois, o público acompanha um embate acalorado e potente, com pitadas de humor.
Dois atores fenomenais. Um presente vê-los contracenando no palco.
Zé Carlos vive um senhor de 85 anos com movimentos que denotam idade avançada, bengala, mas sem ações clichês. Uma peça que coloca em pauta a seguinte ideia: Apesar de tudo, é possível a humanidade prevalecer.
Uma encenação potente, com texto cortante, recheado de argumentações, defesas de opiniões. Atores experientes.
Dois Papas, um representando a ala mais conservadora com um passado de aproximação com Hitler, e o outro tentando se adaptar ao mundo mais moderno.
Bergóglio outrora teve opiniões questionáveis, mas a vida o ensinou a ser mais maleável e a entender que todos somos filhos de Deus.
E uma "surpresa", todos estamos suscetíveis a erros, valendo a máxima que todos temos um lado bom e ruim, todos podemos evoluir e levar a vida com ações em que amanam o respeito e a empatia.
Mesmo com visão arcaica, vale dizer, algumas ações de Bento são positivas, mostrando a complexidade humana.
Ele é paixonado por piano, Schumann e Zara Leander, por exemplo, ilustram a sua personalidade.
As irmãs, por sua vez, também retratam um duelo de opiniões, apesar de não contracenarem, e dão à peça um viés feminino. O talento do artista Curitibano é representado pelo Beto Bruel, grande iluminador, com uma luz que ressalta o teor de um jogo cênico tensionado por embate de ideias, o mesmo ocorre com a trilha de Daniel Maia.
O cenário conta com projeção de imagens e praticáveis que se transforma em diversas ambientações e têm variadas funções cênicas.
Um hit do Abba, Dancing Queen, reforça o espírito aberto ao mundo contemporâneo de Bergóglio, que ama futebol e dança tango, foi segurança numa boate e teve uma grande paixão antes de abraçar o sacerdócio.
Elenco: Celso Frateschi (Cardeal Bergoglio), Zécarlos Machado (Papa Bento XVI), Carol Godoy (Irmã Sofia), Eliana Guttman (Irmã Brigitta).
As freiras estão presentes no texto teatral com muita importância na trama. Atrizes que também merecem todos os aplausos. Direção: Munir Kanaan; Dramaturgia: Anthony McCarten. |