"Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro" Belchior
"O que me move é a paixão"
"Eu não sou personagem, eu não sou celebridade. Eu sou igual a vocês e por isso quero que vocês se identifiquem com a minha história"
E hoje Casagrande tem uma espécie de mantra: "
A Mente quieta; a espinha ereta e o coração tranquilo" , trecho de Coração Tranquilo, de Moacyr Franco
A música é uma paixão e guia a vida, por isso, Sujeito de Sorte, de Belchior, abre e fecha a apresentação.
Walter Casagrande
Usando a frase de Boal " todos nós somos atores", o diretor Fernando Philbert guia o grande nome do futebol Carlos Casagrande numa conversa com o público.
Paulistano da Penha que fez história no futebol, seu avô era músico e era o seu pai quem o levava a jogos.
Sem personagem e com coragem, Casagrande fala de sua vida e visão do mundo.
"Não negocio a minha sobriedade com ninguém, também não negocio minha liberdade e nem a democracia"
"Não podemos engolir emoções, temos que colocá-las para fora"
O destaque é para o seu processo de tratamento e recuperação contra as drogas.
"Cada dependente químico encontra a sua estrada para a recuperação"
Uma conversa teatralizada, com imagens, vídeos e música - a bola no centro do palco - onde conhecemos ideias e compartilhamos um relato corajoso sobre a dependência química e sobre viver sem ter esse amuleto enganador.
Não existe um texto porque ele quis ficar livre para falar. Como ama música, do rock a MPB, a música, letras e amizades na área, estão presentes nessa deliciosa conversa.
Como não é ator, decorar texto seria suplício.
Ora, assim como Glauber Rocha e outros representantes do Cinema Novo, que pegavam a câmera e filmavam sem pretensões de ensaios, técnicas e roteiros, esse espetáculo coloca na cena um profissional de sucesso, nome de suma importância para o futebol, que jogou muito, fez uma carreira gloriosa, mas que por ser químico dependente chegou ap fundo do poço e conseguiu se levantar.
Ele dá destaque às várias fases da dependência de drogas e bebida, à sua infância, ao amor pela irmã que faleceu muito nova, à juventude.
Fala também das agruras, mas conta as boas coisas da vida também. Uma delícia ouví-lo.
Como ele integrava a Democracia corintiana teve contato com muitos artistas que ele admirava de rock e mpb.
"Casa" lembra com carinho das amizades com Gonzaguinha, Rita Lee, Sócrates, o magrão, Marcelo Frommer, dos Titãs, com quem teve um programa de rádio sobre música e futebol; outro magrão, o seu xará Walter, anônimo, amigo de vizinhança e com quem divide o amor pelos discos.
Para quem é fã de arte é um deleite ouvir histórias com Luiz Gonzaga, Fagner, Chico Buarque, João Nogueira, entre outros.
E, claro, a bola, o futebol, permeando os seus "causos".
O Festival de Curitiba tem teatro, principal foco, mas tem gastronomia, shows, shows de variedades, dança, humor e tem a vocação de ousar e oferecer novas e/ou diferentes propostas cênicas.
Na marca do pênalti é um depoimento performático/dramatizado realizado por um "não-ator, mas que toca na alma porque evidencia que todos podemos ter forças para lutar contra as adversidades.
Todos temos situações em que podemos ou não marcar o pênalti e o importante é saber escolher a melhor jogada para que a vida siga em paz.
Casagrande expõe a sua visão política, de esquerda, mas não quer defender partidos.
Esse grande cidadão rememora a época do "futebol arte, do qual fez parte, e que, infelizmente, deu lugar a estratégias de marketing, onde postar algo inútil nas redes sociais pode render mais visibilidade e dividendos do que um jogador mostrar o seu talento para a profissão. Obrigada Casagrande, a sua coragem de falar abertamente sobre a sua dependência química, mostrando que as drogas aparentemente, são legais, mas o seu uso acaba levando o indivíduo dependente a perder seriamente o controle, é louvável!
Conhecer um pouco da sua trajetória foi um privilégio!
Um espetáculo para quem aprecia, ou não futebol, pois aborda a superação e o cotidiano de uma pessoa que só quer viver limpo e feliz, sem estrelismo, mesmo sendo um gigante da bola.
"Eu não sou personagem, eu não sou celebridade. Eu sou igual a vocês e por isso quero que vocês se identifiquem com a minha história"
Ficha Técnica: Com Walter Casagrande Junior; Direção e Idealização: Fernando Philbert; Dramaturgia: André Acioli, Fernando Philbert e Walter Casagrande Jr; Produção: SM Arte Cultura; Direção de Produção: Selene Marinho; Produção Executiva: Andre Roman - Teatro de Jardim; Iluminação: Wilmar Olos; Rede Social: Sergio Mastropasqua; Fotos: Ronaldo Gutierrez; Registro e Edição de Vídeo: Ícarus Filmes; Operação de Vídeo: Rodrigo Chueri; Coordenação de Comunicação e Marketing: Livia Franceschinelli; Assessoria Artística: Vanessa Andrade. |