"Manual de Como Não Esquecer Meu Nome" no Miniauditório do Teatro Guaíra recupera afetos e memórias
Eunice é uma avó, como a minha, como a sua, como milhares pelo Brasil e pelo mundo.
Uma pessoa comum que com certeza amava a família, numerosa, recebia a neta com muito carinho. Fumava escondido no banheiro. Era cearense, mudou-se com a família para Curitiba e de tempos em tempos viajava para a sua terra natal para comprar roupas.
Assim como o marido, que pegava objetos na rua, criou uma zebra "fake" para o sustento e dava nova vida ao que encontrava jogado fora, Eunice era acumuladora e ambos, com cacos, cacarecos e muito trabalho viviam um cotidiano sem grandes percalsos ao lado da família. Aos poucos, no entanto, Eunice foi perdendo a memória e foi fácil perceber o seu esquecimento porque ela começou a fumar em público. O tempo passando e ela só lembrava mesmo do marido, que, coincidentemente, também foi diagnosticado com Alzheimer. A memória que é algo precioso foi sumindo aos poucos, mas o cuidado familiar é que permitiu não somente uma vida digna, mas possibilitou também que a atriz Amanda Curedes transformasse as suas lembranças dos avós em arte.
O teatro tem contado com muitos espetáculos autobiográficos, alguns sem um sentido universal porque só alimenta o ego do artista que está em cena.
Isso não ocorre nesse trabalho. As lembranças de Amanda, transformadas em dramaturgia teatral em parceria com Laís Cristina, que também assina a direção, são singelas, tocantes e ao falar de seus avós, com carinho, um pouco de nostalgia e poesia, ela evidencia o quanto é importante valorizar os laços familiares e fala de questões universais e eternas: o afeto, as lembranças, a cobrança de não ter dado tanta atenção aos entes amados devido à correria diária e o quanto cuidar é essencial para que a vida siga o seu rumo de forma prazerosa mesmo sem a presença física de parentes que amamos.
Também evidencia o quanto a vida é perene e por isso temos que valorizar cada minuto, cada oportunidade de estar com quem prezamos. O espetáculo é a continuidade do projeto de finalização da Faculdade de Artes Cênicas, mas Amanda não imprime um teor acadêmico, pois tudo é poético, criativo e emociona.
Amanda conta a história familiar com muita teatralidade e primor. Laís guia a atriz com competência. Duas moças tão jovens e brilhando muito no fazer teatral.
Cada fala, cada gesto, cada movimento (preciso e minucioso) serve para resgatar memórias afetivas das visitas aos avós, das conversas, mesmo que superficiais, do aroma do chá da tarde, do barulho da água onde Eunice lavava as roupas, e muito mais.
A dança e a música é que conectam a atriz com os seus avós e por isso a fisicalidade é essencial, assim como a trilha tocada ao vivo e os sons que acompanham a narrativa e nos ambientam numa casa cheia de sensações, memórias e afetos.
O cenário traz ambientes que trazem a alma da avó Eunice, o banheiro, uma mesa com cadeiras e um aparelho de chá, além de um objeto artesanal que ganha as funções de casa, lago e luminária.
Num certo momento, esse objeto cênico representa o cérebro enigmático de quem sofre de Alzheimer e perde a sua identidade de modo crescente. Representa também o emaranhado de lembranças de Amanda, num jogo de luz muito interessante. A alma pulsa.
A construção da narrativa é delicada, bilíngue, em Português e Libras. Além da inclusão, a Libras dá ritmo ao espetáculo e promove uma experiência única ao unir a contação falada, o gestual e o sensorial.
Impressionante a expressão corporal da atriz, a sua capacidade para decorar duas linguagens e o seu talento para ampliar a nossa percepção sobre o poder encantador do teatro.
A consultoria em Libras é realizada por Gabriela Grigolom (Negabi), artista surda, em colaboração com o intérprete Nathan Sales. O espetáculo também contou com o apoio do CPTB - Coletivo de Pesquisa em Teatro Bilíngue, que acompanha o projeto como espaço de experimentação artística.
Serviço:
Manual de Como Não Esquecer Meu Nome
Datas: 28 a 31 de maio e 4 a 7 de junho de 2026 (quintas a domingos)
Quintas e sextas, às 20h
Sábado, às 18h e às 20h
Domingos, às 16h e às 18h
Local: Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Miniauditório) | Rua Amintas de Barros, 70, Centro, Curitiba/PR
Tempo de duração do espetáculo: 50 min
Classificação etária: Livre
Especificação do espetáculo: Teatro
Acessibilidade: Espetáculo Bilíngue (Português e LIBRAS)
Ingressos: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia-entrada), à venda pelo DiskIngressos e na bilheteria do Teatro Guaíra.
Informações:
Rede social oficial: @teatromanual
Apoio: Larissa Camargo Confeitaria | Garalhufa Escola de Atuação | Padaria América
Ficha Técnica: Direção: Laís Cristina | Atuação: Amanda Curedes | Dramaturgia: Amanda Curedes e Laís Cristina | Consultoria em Libras: Gabriela Grigolom e Nathan Sales | Intérprete de Libras: Nathan Sales | Músicos: José Moura e Paulo Chierentini | Trilha original: José Moura, Paulo Chierentini e Wenry Bueno | Iluminação: Anry Aider | Operação de som: Nathani Ribeiro | Cenografia: Kamile Enzo | Cenotécnicos: Luis Curedes e Juvenal Pereira | Figurino: Belle Viana | Preparação corporal: Ane Adade | Interlocução acadêmica: Stela Fischer, Milena Flick, Márcio Mattana e Giovana Maria de Oliveira | Produção: Laís Cristina e Luiza Helena | Mídia e comunicação: Luiza Helena | Assessoria de Imprensa: Bruna Bazzo |