O cuidado da produção começa já no saguão, com detalhes que já nos fazem mergulhar na proposta do espetáculo: saudar Tereza de Benguela e o seu legado através das cartas.
Símbolo da resistência preta feminina, Teresa de Benguela ganha uma homenagem bela no teatro.
Com poesia, o espetáculo provoca uma imoortante reflexão sobre o quanto é essencial que a vida de Terezas, de Marias e de tantas e tantas mulheres negras, de todos os lugares do mundo, sejam saudadas na arte e sejam fonte de pesquisas para que nunca mais exista nenhuma privação na vida causada pela cor de pele, nacionalidade, crença, gênero e orientação sexual.
O espetáculo reverencia as mães que lutam para que os filhos tenham um futuro promissor, num mundo racista e misógino. Reverencia a amizade e a esperança.
No texto, palavras de força, amor, respeito e resistência.
Ser mulher já é complicado, imagino como é ser mulher preta. Ou, melhor, impossível até imaginar porque não tenho lugar de fala. Sou branca! Só que para cada mulher preta que é desrespeitada, o meu coração sangra.
Para cada preta, cada preto, cada ser humano que sofre racismo, a minha indignação é enorme e clamo por justiça.
Em cena, duas atrizes e cantoras, pretas, com sonhos, desejos, conquistas e frustrações e que não deixam a memória de Tereza ser esquecida.
Ao homenageá-la elas também homenageiam as suas próprias memórias e as suas ancestralidades africanas e brasileiras.
Sâo duas amigas que conversam sobre as benesses e mazelas da vida e que têm em comum a figura de Tereza de Benguela como exemplo para as suas vidas e ações.
Tereza foi uma liderança quilombola do século XVIII e continua viva na memória dessas comadres. Ela assumiu o comando do maior quilombo da capitania de Mato Grosso após a morte de seu companheiro, José Piolho, e merece atenção por ter conseguido ocupar espaço num ambiente patriarcal.
O apagamento da chamada história oficial é um fato, mas através do teatro podemos entrar em contato com uma preciosa saga de luta pela sobrevivência e contra a escravidão.
Acompanhamos uma história de luta que se perpetua até hoje, pois apesar de muitos avanços, ainda temos escravidão pelos rincões do Brasil e mesmo nas capitais. E, claro, os casos divulgados, em fazendas, trabalhos domésticos, etc, vitimizam os pretos. Além disso, o racismo hoje é crime, mas os números de casos que presenciamos estão cada vez mais alarmantes; é algo nojento e estrutural. Combatê-lo é tarefa de todos nós.
A arte é um meio precioso para que isso ocorra com louvor. Só para citar entre os episódios recentes: a senhora de Brasília, de 70 anos, que em pleno reduto preto (Salvador) cometeu racismo e foi presa. Ficou indignada e ainda disse ter ascendência africana. Muita cara de pau!
A morosidade da justiça e as condenações brandas ainda são um entrave para que qualquer propagação de desrespeito e crime sejam banidas, mas a riqueza do legado é maior do que as mazelas enfrentadas e é valorizando a identidade negra que podemos vislumbrar um futuro mais harmônico.
A peça é interpretada por Flávia Imirene e Sol do Rosário, com direção de Sabrina Marques.
O processo de criação contou com experiências no Quilombo Paiol de Telha, em Guarapuava, e integra o trabalho do OMI Núcleo Artístico em parceria com a Cavala Produções, misturando realidade e ficção.
É uma montagem encantadora, onde amanam a força das palavras e a energia da música afro-brasileira ligada à fé religiosa e ao samba. Vale ressaltar a beleza das canções originais, criadas especialmente para a peça.
Os figurinos são belíssimos e evocam a luz da religiosidade, a grandeza dos orixás, o valor da paz, da amizade e do respeito.
Produções A luz é um grande destaque.
O iluminador Nando Zâmbia ministrou a oficina gratuita “Ará Izô - Corpo que Queima” - o corpo como campo de criação, energia e memória, um veículo para a dança, teatro e musicalidade afro-brasileira, manifestações artísticas presentes no espetáculo que é sensorial, com alto teor estético e com uma dramaturgia corporal para reforçar a força e a importância do que está sendo dito.
A luz acompanha a narrativa que celebra os saberes ancestrais com as cores de fogo, força e também tons neutros com arandelas de luzinhas que servem de espaço para receber a alma de Tereza que contin
Obs: Durante a temporada, todas as sessões contam com intérprete de libras. Nos dias 25 e 26 de abril, haverá apresentações com audiodescrição.
No dia 25, o público também poderá participar de uma visita guiada ao espaço cênico antes do espetáculo, voltada especialmente a pessoas cegas ou com baixa visão.
Serviço:
Revisitando a Grandeza que Somos — Cartas para Tereza de Benguela
De 16 a 26 de abril de 2026
22 a 24 de abril (quarta a sexta) - 14h30
22 a 25 de abril (quarta a sábado) - 20h
26 de abril (domingo) - 19h
Local: Teatro José Maria Santos | R. Treze de Maio, 655, São Francisco, Curitiba
Tempo de duração do espetáculo: 1 hora
Classificação etária: Livre
Especificações do espetáculo: Teatro
Acessibilidade: Libras, audiodescrição e visitas guiadas para pessoas cegas ou com baixa visão
Entrada gratuita: Ingressos distribuídos 1h antes do espetáculo na bilheteria do Auditório
Ficha Técnica:
ELENCO: Flávia Imirene, Sol do Rosário | EQUIPE CRIATIVA: Direção: Sabrina Marques | Dramaturgia: Flávia Imirene | Textos: Sol do Rosário, Sabrina Marques, Flávia Imirene | Direção de Movimento: Priscila Pontes | Direção Musical: Matheus Santos | Música Original: Sol do Rosário, Sabrina Marques, Flávia Imirene | Arranjos: Evangivaldo Santos | Operador de Som: Carlos Alberto Cortes Espejo | Iluminação: Nando Zâmbia | Figurino: Carla Torres | Caracterização e Maquiagem: Kênia Coqueiro | Social Media: Maria Carolina Felício | Foto de Divulgação: Lelo Sasso Fotografia | Identidade Visual: Keyla Queiroz | Direção de Produção: Vida Santos | Produção Executiva: Dan Ramos | Coordenação de Projeto: Sabrina Marques | Produção: Omi Núcleo Artístico e Cavala Produções A luz é um grande destaque.
|