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Críticas - Teatro Adulto

Babilônia Tropical - a nostalgia do açúcar
Publicado em 06/10/2023, 23:00
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Espetáculos com temáticas históricas são sempre bem-vindos para repensarmos fatos marcantes e para o aprimoramento do nosso conhecimento.
RACISMO É CRIME E ESSE ESPETÁCULO É OPORTUNO E NECESSÁRIO. UM GRITO CONTRA O PRECONCEITO!

Após passagem pelos espaços do CCBB de outras cidades, Babilônia Tropical – A Nostalgia do Açúcar” estreou no CCBB SP.
No elenco estão Carol Duarte, Ermi Panzo, Jamile Cazumbá e Leonardo Ventura e como músico em cena, Adriano Salhab.
A direção é de Marcos Damigo.
A peça está ambientada na cidade de Recife do século XVII, época da ocupaçãos dos holandeses, que invadiram o nordeste brasileiro em busca das riquezas do açúcar.
Através desse fato, Damigo, que também assina a dramaturgia ao lado de Ermi Panzo, aborda as contradições de uma época de transformações, mas que ainda tinha como guia das ações humanas os pensamentos arcaicos.
O passado é revisto para pensarmos sobre os nossos tempos.
Qual o preço que pagamos em nome do desenvolvimento e do enriquecimento?
Corpos negros foram massacrados em nome de uma evolução desprezível.
Até 1889 a exploração escravocrata gerou os tempos áureios do açúcar
Com a abolição, construímos Babilônias, grandes cidades, com elas vieram as grandes conquistas tecnológicas e o desenvolvimento das indústrias, mas tudo isso sempre com a exploração dos trabalhadores assalariados, em sua maioria negros.
Isso é progredir?!

Observações sobre a peça Babilônia Tropical - A Nostalgia do Açúcar:

Na trama, Anna Paes envia uma carta ao aristocrata neerlandês Maurício de Nassau.
A moça, que era dona de engenho, o presenteou com seis caixas de açúcar quando ele chegou ao Brasil.
É um fato verídico, que foi registrado no Arquivo Nacional dos Países Baixos.
Anna sabia ler e escrever, estava à frente de seu tempo, mas vivia numa sociedade que dizimava os povos originários e tratava os negros como objetos.
Passado e presente se misturam porque o público acompanha o ensaio de um grupo teatral que coloca em debate os fatos relacionados a essa aristocrata pernambucana.
A trupe de teatro investiga a trajetória de Anna Paes e os conflitos acontecem porque o olhar branco predomina, num grupo em que atores negros exigem que a história oficial seja revista.
O ensaio, que poderia ser mais um encontro sem grandes lembranças na vida dos atores, se transforma num acalorado debate de questões de classe, gênero e raça.
Mais de 400 anos se passaram entre a invasão dos holandeses e os tempos de hoje, mas o racismo perdura de um modo aviltante, ainda mais em um momento em que um governante de ideias fascistas acabou de deixar o poder, mas um momento em que infelizmente, a Direita retrógrada ainda tem conseguido adeptos mundo afora.
Carol Duarte é a atriz que busca desvendar quem foi Anna e Leonardo Ventura é o diretor aparentemente questionador.
O elenco tem nos atores Ermi Panzo, artista angolano radicado há quase dez anos no Brasil, que também assina a dramaturgia da obra, e em Jamile Cazumbá, artista baiana que transita pelo audiovisual e a performance, as essenciais e pertinentes vozes negras.
Vivemos, sim, num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas óbvio que a história oficial é branca, os heróis dos livros são brancos, e a nossa literatura é prioritariamente branca.
Aqui e acolá pipocam gritos negros e dos povos originários, mas raramente eles são ouvidos.
Os personagens de Panzo e Jamile dão um banho de água fria no diretor, que mergulha nos livros, pensa ter uma visão moderna sobre a vida, mas não dá voz aos excluídos.
Também questionam a visão supostamente alienada da atriz que tenta elucidar quem é Anna. Não é à toa, que ela é "over", neurótica, viciada em açúcar. Assim como o diretor, acredita ser "moderninha" , mas também tem uma visão colonialista e, portanto, deturpada, alienada, da nossa história.
A história oficial é virada do avesso, como deve ser!
O lugar de fala, que até um certo momento é dos atores brancos, torna-se secundário. O protagonismo no palco dos negros é preponderante, com provocações pertinentes e atuais sobre atitudes racistas, as quais, muitas vezes, ou na maioria das vezes, melhor dizendo, não são detectadas porque estamos tão acostumados a um protagonismo branco, que perceber atos racistas é muito complexo.
A peça Babilônia Tropical é arte-manifesto, que toca nas feridas da história oficial racista, misógina e que precisa ser questionada sempre.
Diariamente ouvimos pessoas afirmando que o brasileiro é acolhedor, que no Brasil o racismo é praticamente inexistente! Falácia!
Como não somos racistas se permitimos que os negros sejam excluídos dos estudos, dos altos cargos, enfim, raramente eles são protagonistas. Para muitas pessoas as cotas são absurdas! E na área cultural, por exemplo, os livros que guiam a nossa educação e aprimoramento cultural são escritos prioritariamente por brancos.
Babilônia Tropical é um espetáculo pulsante, questionador. Tem diálogos inteligentes, permeados de canções que são uma "apunhalada na cara" de quem ainda não percebeu o quanto o racismo é algo inaceitável.
Esse espetáculo é necessário porque estamos numa época em que ainda presenciamos trabalhos análogos à escravidão, mesmo com tanta informação e tecnologia que poderiam contribuir para a evolução humana!
Os atores são excelentes e são orientados por um diretor que explora muito bem o tom provocativo dos diálogos e da música (executada ao vivo).
Para acentuar o tom provocativo da encenação, vídeos expõem o açúcar e o sangue jorrado pela carne negra em prol do desenvolvimento do Brasil e do enriquecimento dos senhores de engenho.
Somos um país abençoado, mas quem ajudou a construir as nossas riquezas necessita de respeito e de um merecido lugar para desfrutar as benesses que, salvo exceções, só uma elite alienada tem a oportunidade de conquistar.

Damigo foi quem idealizou e dirigiu "Leopoldina, Independência e Morte".
É um artista talentoso e que mais uma vez assina um espetáculo que cria um diálogo inteligente entre passado e presente. Um artista que sempre tem como meta projetos que mexam com as estruturas de uma sociedade que se apresenta como se estivesse em contínuo desenvolvimento, mas que na prática carrega consigo o peso de um modo de agir e pensar cheio de preconceitos e equívocos.

Para saber mais
@ccbbsp

‍FICHA TÉCNICA

Marcos Damigo - idealização, concepção e direção geral

Gabriel Bortolini - concepção e direção de produção

Ermi Panzo e Marcos Damigo - dramaturgia

Carol Duarte, Jamile Cazumbá, Ermi Panzo e Leonardo Ventura - elenco

Lúcia Bronstein e Sol Miranda - interlocução artística

Adriano Salhab - direção musical, composição e música ao vivo

Simone Mina - direção de arte

Wagner Pinto - iluminação

Glaucia Verena - preparação vocal e consultoria artística e dramatúrgica

Pat Bergantin - preparação corporal

Daniel Breda - consultoria histórica

Rafa Saraiva e Mila Cavalcanti - programação visual

Coletivo Corpo Sobre Tela/Ricardo Aleixo e Julia Zakia - direção de fotografia Coletivo Corpo Sobre Tela - montagem e finalização de cor

Rafael Tenório - vídeo engenho em chamas

Luiz Schiavinato Valente - coordenação de redes sociais

Mayara Santana e Rafael Tenório - design para redes sociais

Jackeline Stefanski Bernardes e Ví Silva - assistência de direção

Luiz Schiavinato Valente e Ví Silva - assistência de produção

Rick Nagash - assistência de direção de arte

Vinicius Cardoso - assistência de cenografia

Amanda Pilla B e Hellige Sant’Anna - assistência de figurino e adereços

Carina Tavares - assistência de iluminação

Wanderley Wagner e Fernando Zimolo - cenotécnica cenário

Mauro José da Silva e Matheus Kaue Justino da Silva - cenotécnica filmagem Vivona - cabeleireira elenco

Julia Zakia - making off

Luiza Zakia Leblanc - câmera adicional making off ‍

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SERVIÇO

Babilônia Tropical - A Nostalgia do Açúcar

Temporada: de 06 de outubro a 19 de novembro de 2023, sempre de quinta a domingo

Horário: quinta e sexta às 19 horas, sábado, domingo e feriados (12/10 e 02/11) às 17h

Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – CCBB SP

Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – SP

Próximo à estação São Bento do Metrô

Entrada acessível: Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e outras pessoas que necessitem da rampa de acesso podem utilizar a porta lateral localizada à esquerda da entrada principal.

Duração: 80 minutos

Recomendação: 14 anos

Ingressos: R$30 (inteira) / R$15,00 (meia-entrada)

Vendas: bilheteria do CCBB SP ou pelo site bb.com.br/cultura
Clique nas imagens para ampliar:

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DE OLHO NA CENA BY NANDA ROVERE - TUDO SOBRE TEATRO, CINEMA, SHOWS E EVENTOS Sou historiadora e jornalista, apaixonada por nossa cultura, especialmente pelo teatro.Na minha opinião, a arte pode melhorar, e muito, o mundo em que vivemos e muitos artistas trabalham com esse objetivo. de olho na cena, nanda rovere, chananda rovere, estreias de teatro são Paulo, estreias de teatro sp, criticas sobre teatro, criticas sobre teatro adulto, criticas sobre teatro infantil, estreias de teatro infantil sp, teatro em sp, teatros em sp, cultura sp, o que fazer em são Paulo, conhecendo o teatro, matérias sobre teatro, teatro adulto, teatro infantil, shows em sp, eventos em sp, teatros em cartaz em sp, teatros em cartaz na capital, teatros em cartaz, teatros em são Paulo, teatro zona sul sp, teatro zona leste sp, teatro zona oeste sp, nanda roveri,

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