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Críticas - Teatro Adulto

Boca de Ouro, com direção de Gabriel Villela, é teatro pulsante, que subverte qualquer modo tradicional de se montar Nelson Rodrigues
Publicado em 16/08/2017, 02:00
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Boca de Ouro é um deslumbramento! Preciosismo no trabalho do diretor, do elenco, equipe criativa e técnica

Com Malvino Salvador, Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold e Guilherme Bueno.

Chegue um pouco antes da sessão para dar tempo de você se emaranhar de ouro, o ouro que é a obsessão do Boca de Ouro e já está presente nas almofadas das cadeiras que abrigam o espectador.


Sobre a trama:
Boca de Ouro era famoso no subúrbio carioca, com vários apelidos, entre eles Drácula de Madureira. Nasceu numa gafieira de maneira vulgar e para satisfazer um sonho troca os seus dentes por dentadura de ouro e faz um caixão também de ouro, e diz que quando ele estiver pronto, pode morrer sossegado.

Ao ser assassinado, um jornalista, Caveirinha, tem a função de escarafunchar a sua vida. Procura Guigui, sua ex-mulher, que, com o seu caráter volúvel, conta três versões sobre a sua história. E os personagens são típicos de Nelson Rodrigues: retratam a miséria humana, pois são interesseiros, megalomaníacos, perturbados, hipócritas, retratos de uma sociedade preconceituosa e doente em muitos aspectos, sobretudo morais.


O Boca de Ouro de Gabriel Villela
Boca de Ouro, que estreou na semana passada no Tucarena, em São Paulo, é um espetáculo que traz luz, cor, música e brilho para o palco. Conta uma história conhecida de quem aprecia teatro de uma maneira criativa.

A imaginação do diretor Gabriel Villela não tem limites, mas ele está sempre ancorado em técnicas precisas.

Essa imaginação sem limites do diretor faz com que a obra de Nelson Rodrigues ganhe uma versão que ultrapassa tudo o que já tive a oportunidade de ver com relação à encenação das peças desse que é considerado o nosso maior dramaturgo.

Gabriel já dirigiu Vestido de Noiva e A Falecida com muita competência, mas Boca de Ouro traz uma irreverência magnetizante, uma irreverência pautada, vale dizer, no conhecimento profundo do teatro em geral e de Nelson Rodrigues (Gabriel foi aluno de Sábato Magaldi e usou todo o seu aprendizado sobre o dramaturgo para a criação desse espetáculo).

O diretor sempre cita em entrevistas a importância do professor para o aprimoramento do seu conhecimento). Essa é uma qualidade que, vale frisar, é pautada no amadurecimento profissional no decorrer dos anos, que traz ao artista uma experiência que garante um frescor impressionante.

Para dar vida às suas ideias, conta com profissionais muito gabaritados e a ajuda dos seus assistentes é sempre de grande valia. Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo têm essa função.

Luz, arquitetura cênica - elementos de cena, figurinos, visagismo, trilha tocada - e cantada ao vivo - e o elenco formam um todo que atua em plena harmonia para que as ideias de Gabriel ganhem vida.

A interpretação dos atores (somente Malvino e Gui Bueno ainda não tinham participado de uma peça do diretor) é um grande trunfo, uma joia que Gabriel lapidou com maestria (contando com a ajuda de assistentes de direção que o acompanham em muitos trabalhos, Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo). Contou também com a ajuda de Babaya, na preparação vocal, e Francesca Dela Mónica na espacialização e antropologia da voz, que garantem aos atores a técnica necessária para colocar a voz em cena de forma correta, dando veracidade aos personagens nas suas várias camadas.

Num tom melodramático, numa prosódia que transporta o público para os anos 50, começo dos sessenta, os atores dão sustentação à história e ao emaranhado de emoções e sensações que ela transmite... Vozes inspiradas no rádio e que nos levam para uma época de ouro.

O figurino, sempre superlativo, de Gabriel, além de muito belo, desenha com precisão as características dos personagens e tem como suporte a maquiagem de Claudinei Hidalgo e o grande talento do elenco para dar vigor à obra de Nelson Rodrigues.

Malvino merece elogios, apresenta todas as nuances da personagem, que é mostrada como um homem brutalizado e também como um lorde; louco, amante, bandido, apaixonante; Claudio Fontana está pleno, arrebatador como Leleco. Leva para o palco leveza, desenvoltura e vigor, com grande domínio da voz e do corpo; Mel Lisboa dá brilho à Celeste (esposa de Boca), uma mulher graciosa, interesseira, fútil e estabelece com Fontana (e com todos os atores com o qual contracena) uma química excelente; Lavínia Pannunzio é diva, intensa, entregue, tem a difícil tarefa de representar uma mulher volúvel, com várias faces e faz o seu trabalho com elegância e competência

Chico Carvalho, como o repórter Caveirinha, tem a tarefa de levar para o palco a malícia, o jogo de cintura e a falta de brios de quem está em busca de notícias de cunho sensacionalista. O ator, que interpreta também Maria Luísa, se desdobra entre os dois personagens e transita de um para o outro com uma rapidez mágica; eles se misturam, inter-relacionam e abrem o caminho para o desfecho da peça; Leonardo Ventura é o marido de Guigui, com presença marcante em cena pela postura corporal e força na interpretação.

Mariana Elisabetsky canta divinamente e tem uma presença intensa, uma crooner que está acompanhada de um pianista (Jonatan Harold) e tem a tarefa de pontuar as cenas e dar a elas um tom trágico, valorizando o teor simbólico e mítico que as cenas possuem.

A trilha e o canto de Mariana reforçam o melodrama de uma maneira impactante e a emoção que as cenas propõem ganha uma dimensão superlativa. Uma trilha que evidencia também lindas canções da história da nossa MPB, que tocam fundo na alma.

Diálogos e falas entremeados por sons de máquinas de escrever e jornais com as suas páginas reviradas, que terão o registro de relatos distintos, opostos e que trazem consigo a interrogação: qual das histórias sobre Boca e sobre os personagens com os quais teve contato é verdadeira...? (se é que alguma delas possui mesmo algo de verdadeiro)! Um tapa na cara nos seres humanos doentios, nas hipocrisias sociais e em quem vive da exploração do outro!

Completam o elenco Cacá Toledo e Guilherme Bueno (Iansã que pontua a morte, nesse espetáculo em que o limite entre a vida e a morte é tênue), presenças essenciais para dar suporte às cenas e sentido à trama.

Como a gafieira é a ambientação, cenário assinado por Gabriel Villela, as movimentações em cena seguem os passos do samba de gafieira (em certos momentos, alguns literalmente, a dança serve como a inspiração para as expressões corporais dos personagens) e a arena do teatro é explorada em toda a sua plenitude.

Um dos grandes destaques do trabalho de Villela, que demonstra o quanto o diretor tem como premissa despertar a capacidade do espectador de imaginar, objetos ganham novas funções em suas mãos, novos significados.

Uma escada, um dedal, a serpentina e o confete que podem significar o belo, a festa, mas também servir de apoio para a dor; o colar de pérolas que sufoca e mata, entre tantos outros objetos presentes na cena, ajudam nas ambientações ou mesmo na caracterização dos personagens, das personalidades dos mesmos, e reforçam o sentido das várias narrativas e tragédias presentes na obra.

O espetáculo tem humor, um humor inteligente, o que mostra que Nelson Rodrigues tem, sim, essa característica nas suas criações. O texto traz toda a sagacidade e hipocrisia de pessoas que têm valores questionáveis ou mesmo cometem crimes sem nenhum problema de consciência.

Boca é bicheiro, e dizem, assassino; Leleco (Claudio Fontana) e Celeste (Mel Lisboa) fazem tudo por dinheiro (de que adianta a consciência tranquila quando o sonho maior é conhecer Grace Kelly e nunca mais andar de lotação!); Guigui (Lavínia Pannunzio) mente em nome do amor insano e da sede de vingança.

Nelson Rodrigues foi jornalista policial e conhecia muito bem o sensacionalismo da imprensa, que está impresso na trama. Tragédias pessoais acontecem e a imprensa explora sem dó nem piedade a vida alheia sem a preocupação em mostrar a verdade dos fatos (afinal, Guigui traz várias versões de Boca e como saber qual é a verdadeira?). Na era do ¨fake news¨, o negócio é vender e dar audiência: quanto mais tragédia, melhor!

O sangue do vampirismo de Boca é o sangue que promove asco e chama a atenção para a figura megalomaníaca do protagonista que é temido por muitos, amado por outros e que também gera a curiosidade de todos que conhecem a sua fama... O sangue que também é encantamento porque contém toda a magia do universo criativo de Villela.

Como Gabriel Villela mesmo diz, estamos vivendo nas trevas e, acrescento, as trevas do desrespeito, da impunidade, da ganância que causa tragédias e o espetáculo é uma obra-prima bem-cuidada que mostra o quanto a trama de Nelson Rodrigues (a peça foi escrita em 1959) continua atual.

E ainda, vale dizer, essas trevas estão impressas na encenação. Existe beleza e poesia, mas as cores avassaladoras típicas do diretor dão lugar a um tom comedido na luz, nos figurinos e elementos de cena, mas não menos precioso e magnetizante... as trevas da vida, da mesquinhez e contradição humana e da gafieira onde Boca foi parido numa pia!

Boca de Ouro é o nosso Brasil. Mistura de cor, beleza, trevas, dor, amor; país de muitas ações escusas, mas que também traz uma mistura de religiosidades, crenças. Um Brasil onde a arte brilha em todos os lugares e instâncias e que nos mostra que ainda existe uma luz no final do túnel. A arte que provoca reflexão e nos comove.

Só a arte para nos salvar! E Gabriel com seu ¨teatro magia¨, promove o encontro do público com um teatro onde imperam a beleza e a poesia, que para o diretor são os meios mais eficazes para que o mundo se torne mais interessante e as pessoas, através do encantamento, se tornem mais sensíveis e, consequentemente, altruístas.

E saímos do teatro prontos para uma vida um pouco mais interessante e a cabeça fervilhando com as informações que a montagem traz!


Elenco, ficha técnica/criativa e serviço:
Com Malvino Salvador, Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold e Guilherme Bueno. no #Tucarena. #gabrielvillela #bocadeouro

Serviço
Duração: 100min. Teatro Tucarena. Sex e Sáb 21h, Dom 18h30. R$ 50 (sex), R$ 50 e R$ 70 (sáb e dom). Gratuidade a portadores de deficiência. Classificação 14 anos. Estreia 11/8. Até 29 de outubro. Ingresso: www.ingressorapido.com.br.ou bilheteria do teatro.
http://www.teatrotuca.com.br/espetaculos/boca-de-ouro.html

Ficha Técnica
Texto: Nelson Rodrigues. Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela. Iluminação: Wagner Freire. Direção Musical e preparação Vocal: Babaya Morais. Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca della Monica. Pianista: Jonatan Harold. Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo. Foto: João Caldas. Produção executiva: Luiz Alex Tasso. Direção de produção: Claudio Fontana.

Vale a pena ler o texto do Merten, onde ele fala da encenação nos mínimos detalhes e coloca com muita propriedade observações sobre a concepção estética do espetáculo
http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-carlos-merten/expressionismo-e-melodrama-no-dracula-de-madureira-o-boca-de-gabriel-vilela/

Texto para divulgar a estreia
Por Nanda Rovere
http://www.deolhonacena.com.br/index.php?pg=3a3b&sub=251#linha

E sobre Imaginai, que conta a trajetória de Gabriel Villela no teatro – Textos de Dib Carneiro Neto e pesquisa das fotos por Rodrigo Audi
http://www.deolhonacena.com.br/index.php?pg=3a2b&sub=223#linha
Clique nas imagens para ampliar:

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DE OLHO NA CENA BY NANDA ROVERE - TUDO SOBRE TEATRO, CINEMA, SHOWS E EVENTOS Sou historiadora e jornalista, apaixonada por nossa cultura, especialmente pelo teatro.Na minha opinião, a arte pode melhorar, e muito, o mundo em que vivemos e muitos artistas trabalham com esse objetivo. de olho na cena, nanda rovere, chananda rovere, estreias de teatro são Paulo, estreias de teatro sp, criticas sobre teatro, criticas sobre teatro adulto, criticas sobre teatro infantil, estreias de teatro infantil sp, teatro em sp, teatros em sp, cultura sp, o que fazer em são Paulo, conhecendo o teatro, matérias sobre teatro, teatro adulto, teatro infantil, shows em sp, eventos em sp, teatros em cartaz em sp, teatros em cartaz na capital, teatros em cartaz, teatros em são Paulo, teatro zona sul sp, teatro zona leste sp, teatro zona oeste sp, nanda roveri,

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